
Consequência não se sabe bem do quê, a terceira idade aqui tem vindo a ser abandonada, muitas vezes são deixados ao abandono por filhos e família. Velhos e cansados, a ajuda de simples refeições dadas na cozinha comunitária dos LD, marca o dia e o seu ritmo. Em frente à cozinha a Dª Joana, que ali mora, espera pacientemente as horas das refeições, o almoço hoje, fubá (farinha de milho cozida em forma de uma papa ) com peixe estufado. Não faz as nossas delícias, mas é nutritivo e serve bem o seu propósito. Conversamos com algumas destas pessoas e vemos nos seus gestos e nos seus olhos dias vividos com muito esforço, e uma devoção evidente.
Benzem-se todos ao entrar na cozinha, e agradecem em surdina o que vão receber. A idade aqui não é um posto, mas sim um poste a que se é amarrado e do qual ninguém, ou melhor, quase ninguém estende a mão para ajudar. Muitas destas pessoas vieram de Cabo verde e Angola para trabalhar nas roças coloniais e aqui ficaram. Um dos membros desta comunidade, arrancado à mais de quarenta anos da sua terra, posto num barco sem saber muito bem para onde ia ou quando voltava, deixou um filho de 3 anos que hoje, passados estes quarenta e muitos anos conseguiu juntar dinheiro suficiente para comprar um bilhete para o regresso do Pai, finalmente a sua casa. 
Esta é apenas uma das muitas histórias, esta feliz muitas não o são, destas pessoas que aqui vivem, vendo passar o tempo e lembrando com saudade os portugueses e o tempo em que tudo tinham comparado com o que têm agora. A liberdade aqui teve um preço muito alto, que se vai pagando em suaves e penosas prestações para estas pessoas que ocuparam um par de horas na nossa vida, mas que nos deixaram uma memória que ficará para sempre.
À noite, um jantar muito especial, no Teia d’ Arte, atelier de pintura, cultura e palavra do João Carlos Silva, fomos convidados a partilhar uma noite criola com musica ao vivo de cabo verde e com mais uns fantásticas viagens de sabor. Ao inicio da noite não o sabíamos mas entre os cerca de 20 comensais presentes encontravam-se duas pessoas de importância especial para o nosso anfitrião. O senhor Chocolate, italiano, e profissional do chocolate que escolheu São Tomé como lugar para viver e desenvolver aquele que a BBC classificou como o melhor chocolate do mundo, e a filha do Eng. Abecassis, patrono de uma fundação que pretende estreitar os laços da lusofonia e amigo pessoal do João, a filha fundadora da Associação acreditar deixou-nos a ideia de que o trabalho do pai será seguido por ela e que o carinho por São Tomé é tal que estaria disposta a tornar esta ilha de 150 mil pessoas um paraíso para elas mesmas. O cacau de excelência como futuro e as mãos e a alma para o conduzir foram esta noite juntos num só lugar, quem sabe não terão sido aqui semeadas as sementes de algo maior.

Independentemente do seu futuro, São Tomé ficará para sempre na nossa memória como uma terra de abundância de tudo, generosidade, acolhimento e tudo o mais que podem e devem fazer deste país um paraíso para as pessoas que nele vivem e não somente para quem o visita.
Levamos daqui muito mais do que trouxemos, por isso mesmo, obrigado São Tomé, obrigado.

Um beijo e um queijo,
Helder, Filipa, Sónia e Jorge