Domingo, Fevereiro 26, 2006

Os tachos e a roça

A uns meros 40 Km da capital, junto à localidade de Angolares, fica a Roça de São João de Angulares. Após hora e meia, noite dentro, por estradas que mais parecem a superfície lunar, chegamos a esta roça que se pode dizer seja equiparada ao nosso turismo de habitação/rural. Esta roça prima por ser uma das poucas roças em funcionamento e cuja herança dos tempos coloniais foi conservada e é hoje um dos poucos e valiosos pólos turístico e culturais da ilha. A totalidade do mérito e destaque que esta roça tem e merece advêm do facto do seu proprietário ser o João Carlos Silva, célebre em Portugal por ser o apresentador, executante e entertainer do programa “Na roça com os tachos”. A casa principal está restaurada e é hoje uma pousada simples com uma decoração rústica embora bem agradável e acolhedora, e onde a arte do João tem destaque em todos pontos da casa. Possui uma enorme esplanada/restaurante com uma vista privilegiada sobre a baía de Santa Cruz repleta de coqueiros e de areia vazia de gente. O hospital da roça, aqui todas as roças em tempos tiveram hospital, foi convertido em escola, atelier de pintura, escultura e música popular. Estando aberta aos filhos das pessoas que trabalham na roça assim como a quem queira utilizar o espaço.Fomos extremamente bem recebidos pelo Amílcar, gerente da pousada, dado que o João estava ausente neste dia. A casa possui no primeiro andar uma varanda em forma de L no qual se tem acesso aos quartos e de onde se pode observar toda a extensão da plantação da roça que inclui banana, cacau, café, ananás, pimenta, malagueta, etc.

À noite cobre-se a cama com o mosquiteiro, pois o calor é tanto e dado não haver ar condicionado (eu tinha dito que era rústico) tivemos que abrir as duas portas do quarto que dão para a varanda comum de modo a o ar poder circular, ah, a partir da meia noite também deixa de haver electricidade. E dormimos assim de portas abertas mas sem receio pois éramos as únicas pessoas na pousada para além do guarda. No entanto é de todo de evitar circular nestas estradas à noite pois não existe assistência em viagem e os furos são frequentes. Que diga o nosso Nissan Terrano 2 que de manhã tinha um pneu em baixo.Iremos aqui voltar para almoçar no dia 28 pois o João já aqui estará e vamos também apanhar o exemplar do livro de receitas do João que trouxe expressamente para ele mo autografar.Seguimos caminho para a ilha das rolas, 50 km por estradas com pontes coloniais caídas e onde a alternativa passa por atravessar directamente os riachos. Ainda bem que agora temos um jeep à séria que nos dá a confiança necessária para estas “estradas”.
Um beijo e um queijo,
Helder, Filipa, Sónia e Jorge

O choque, o horror!

Chegados ao cais de embarque para a ilha na povoação de ponta baleia, demos de caras com 30 exemplares de uma espécie não autóctone e que muita estranheza e por vezes horror nos causou. O típico português, de um branco esquálido, fatito a cheiras a mofo e ainda aparvoados do voo nocturno. Sair de Portugal com o 6 graus e chegar aqui com 31 e a chover é natural que o choque seja grande. Esta fauna que pacientemente aguarda o barco, olha-nos com o mesmo espanto e horror que nós olhamos para eles, de calções havaianos pelos joelhos, cabeça rapada e bronze de quem já cá está à uma semana não deixamos de lhes parecer aves raras. Ao menos o prazer é mútuo.Este turismo de massas de quase terceira idade obesa deixa-nos pensar que de facto aquele não é o turismo que nós gostamos de fazer. Há pessoas que gostam de passar férias, e há aqueles que preferem fazer viagens. Claramente enquadro-me cada vez mais no segundo lote. Não é que não goste de passar um dia ou outro de papo para o ar, mas apesar do resorts ser bem simpático, o nosso (meu) objectivo é outro, fazer mergulho!Pena este resorts apostar num turismo sénior e de massas quando tem um potencial enorme para ser um fantástico destino de eco turismo com toda esta natureza que o rodeia e que certamente bem aproveitada daria muitos mais lucros aos seus proprietários assim como serviria de garantia de futuro a todo o eco sistema circundante.No regresso do jantar no restaurante do resorts, passa uma pessoa por nós e diz-nos: “Querem ver uma tartaruga a por ovos?! Está ali ao pé da piscina!” Nem queríamos acreditar na sorte que estávamos a ter de uma tartaruga com aproximadamente um metro de comprimento ter escolhido a praia em frente à piscina para colocar os seus ovos. Foi um dos momentos mais altos desta viagem ver aquele animal lindo realizar a sua tarefa com esforço, tapando os ovos no final, e depois partir rumo ao mar. Foi LINDO! No que toca ao objectivo, mergulho, foi parcialmente atingido pois pude ver alguns dos espécimes grandes que habitam estas águas, como o mero e a barracuda, mas infelizmente até à data nenhum tubarão. Pode ser que amanhã tenha mais sorte com o mergulho pela manhã.
Cenas dos próximos capítulos: Iremos rumar ainda mais a Sul, a uma zona chamada de Jalé onde ficaremos numa pousada localizada em zona de mangais e de praias onde habitualmente desovam tartarugas marinhas. Iremos fazer um passeio nocturno pelas praias a fim de ver mais uma vez este bonito momento da natureza.
Um beijo e um queijo,
Helder, Filipa, Sónia e Jorge

Por entre vales e montes






O parque natural do Obô situa-se no centro da ilha, aqui reside grande parte da sua biodiversidade vegetal e animal. Podem encontrar macacos, cobras venenosas, e até morcegos com 70 cms de envergadura, para além de uma grande diversidade de pássaros dos mais variados tamanhos cores e feitios. Mas isto claro para quem está treinados para andar com os olhos na copa das árvores e não no chão escorregadio e lamacento, como nós..
A paisagem resume-se a um sem fim de vales de árvores monstruosas com as suas copas cobertas da neblina típica de uma floresta equatorial deixando-nos a sensação de estarmos envolvidos numa jornada épica pela sobrevivência numa floresta perdida qualquer. Nada disso.Francisco o nosso guia abria caminho através da mata cerrada à custa da sua catana afiada de meio metro, que cortada os obstáculos, lianas troncos e vegetação como se de manteiga se tratasse. Num total de 7 horas seguidas e de mais de 16 km percorridos nestas condições, conseguimos chegar ao nosso destino. O ponto mais alto da nossa caminhada foi a ascensão a um dos picos da ilha, a lagoa Amélia. Situada a 1643 m de altitude, esta antiga cratera do vulcão que deu origem à ilha encontra-se agora coberta de vegetação e não é mais do que um pântano. Ponto de passagem para quem faz estas caminhadas, a avaliar pelo trilho, não deve ser muita gente. Atravessamos antigas roças abandonadas e reconquistadas pela floresta que nestas paragens rapidamente ocupa o seu lugar. Não deixa de ser triste constatar que neste país tudo ou praticamente tudo está ao abandono, as roças, as estradas e sobretudo as pessoas. Em suspensão desde a independência, à espera de reformas e investimentos nunca concretizados estas gentes aguardam. E aguardam como se estivessem à espera que mais alguém, que não eles, fizesse alguma coisa.
Esta é uma terra de gente que espera, seja por melhores dias, e alguns suspiram mesmo por dias que passaram onde tinhas estradas, escolas, hospitais e em que sabiam pelo menos o seu papel numa sociedade que não era igualitária, mas que passou que também não o deixou de ser, antes pela cor da pele, agora por quem sabe gerir os seus interesses e que se aproveita de todas as fontes externas de dinheiro sem o canalizar para o que é preciso. Há aqui pessoas que não têm energia eléctrica à mais de 30 anos. Fome não existe pois basta estender a mão e fruta, peixe caem sem esforço no prato. Ao menos isso… Numa Africa tão afectada pela fome, pelo menos aqui esse não é o problema. Leve leve..

Um beijo e um queijo,

Helder, Filipa, Sónia e Jorge

Quinta-feira, Fevereiro 23, 2006

Principe, o mais perto do paraiso






Partimos para o príncipe a bordo de um avião a hélice em que a parte de fora diz Linhas Aérias de São Tomé, mas os folhetos de conselhos durante o voo amarelados dizem TAP, o que indica a antiguidade do aparelho e da facilidade com que enfrentamos este voo.
Mas chegamos em segurança e para compensar a excitação do voo, entramos na mitshubichi strakar sport kitada novinha em folha com leitor de cd com telecomando mas cujo proprietário não ultrapassa os 20 km/h e nunca põe a terceira.. Deve ser o único carro novo na ilha, e como depois pudemos constatar é de facto o único.Alugamos um susuki samurai velho a cair de podre e lá fomos nós perdidos nas estradas da ilha sem mapa quando demos por nós lá estávamos à porta do resort bombom, onde em troca de 15 dólares por cabeça pudemos disfrutar da praia fantástica e das comodidades de um hotel de 5 estrelas, nada mau..Estamos com azar com os carros, este deixa entrar gases do escape para dentro do carro e ficamos todos meios mortos com aquela mistura de má gasolina com petróleo à mistura.. dia seguinte .. pickup com condutor… percorremos as mais fantásticas praias de águas quentes, transparente e de um azul mais invejável que alguma vez estivemos, de graça e sem ninguém em lado nenhum, custa a acreditar mas somos os únicos turistas na ilha. Isto é um paraíso em que se fala português e onde as pessoas apesar de pobres vivem felizes e sem fome. Toda a gente é simpática e desejam de facto falar connosco nem que seja apenas para dizer bom dia ou boa tarde. No entanto há aqui pessoas que não têm electricidade à mais de 30 anos, desde a independência. Não admira que gostem dos portugueses, não tinham a independência mas não sentiam a falta dela, agora têm-na e sentem falta do que tinham, progresso, ordem, cuidados de saúde, estradas, empregos e oportunidades. Não deixa de ser um paraíso, deixo as fotografias falarem por si.
Cenas dos próximos capítulos:
Vamos fazer uma caminhada de um dia no parque natural de Obó e vamso ficar na Roça do João Carlos Silva, o da “Na roça com os tachos”.

Um beijo e um queijo,

Helder, Filipa, Sónia e Jorge

Segunda-feira, Fevereiro 20, 2006

3 Dias, 3 Semanas





Esta é a sensação temporal que nos atravessa, e como dizia Fernando Pessoa, “África, primeiro estranha-se depois entranha-se.”.O que é fascinante é que não estranhei, apenas se entranhou em mim uma paz, um à vontade, uma sensação de bem-estar geral.Este é o efeito de São Tomé, estar de bem com a vida. Do aeroporto, percorrendo a marginal para a cidade atravessamos baias serenas onde crianças brincam na água, numa areia escassa e sobre utilizada para a construção deixando as praias cada vez mais diminutas. Os coqueiros na vertigem debruçam-se sobre o mar como se a qualquer momento estivessem à espera de lhe tocar.Ali perto, no rio, mulheres lavam a roupa deixando-a a corar ao Sol, afinal de contas é fim-de-semana, dia reservado à higiene e à roupa.Na cidade reina a confusão, bancas de rua de peixe, de legumes e frutas e de roupa interior vivamente colorida acotovelam-se em mercados de cheiro duvidoso. Apesar disso é possível encontrar a uma dezena de metros paraísos da boa cozinha São Tomense, com peixe grelhado da melhor qualidade e com um tempero no mínimo fantástico. Em São Tomé a cultura da batata não se dá, mas a diversidade e riqueza desta terra trouxe ao nosso prato a banana pão, frita ou cozida, sempre divina e a fruta pão que grelhada na brasa se torna num quase “miolo de pão” fofo e acabado de cozer.Na maior das simplicidades e no melhor dos requintes africanos, provamos peixe na sua maioria densos e ás lascas com os nomes de Olho grosso, peixe vermelho,.. cada um melhor que o outro…A fruta também é outra das dádivas desta ilha paraíso, a jaca, fruto grande e com interior aos gomos que sabe a ananás e chega a pesar 20 kg. Outro fruto abundante é a manga, papaia e banana pequena, mas com um sabor único, nada tendo a ver com as bananas a que estamos habituados.Percorremos a parte Norte da ilha, com o nosso Suzuki Vitara 4x4 em busca de praias perdidas na nossa imaginação e até encontramos algumas e por estradas que não estão em nenhum mapa, talvez porque não são estradas, mas sim caminhos de cabras que o nosso Vitara supera com relativa facilidade. Assim do nada avistamos da estrada uma baia de uma água azul clara, saída da nossa imaginação onde a água quente e límpida nos acalmou o corpo dos buracos na estrada e dos off-road improvisados e sede de estar dentro de água a ver uns peixinhos coloridos que por ai andavam nos corais. Um paraíso. Continuamos para norte ao longo da costa onde no meio de aglomerado de barracas demos com o nosso restaurante referenciado “A Santola” também ele uma barraca um pouco maior do que as outras porém com um peixe grelhado com banana pão frita do melhor que comemos. A revisitar sem dúvida.De volta à cidade no nosso terceiro dia visitamos as missionárias da ONG “Leigas para o Desenvolvimento” que nos acolheram da melhor forma possível e onde trocamos ideias de como é viver em missão e ajudar os outros numa terra em que ninguém ajuda ninguém. Agendamos para mais tarde umas visitas ás suas missões de modo a podermos perceber melhor o espírito, pode ser que dê algum artigo…Nesta terra os melhores perfumes são apresentados nos piores frascos, na marginal da cidade há um antigo contentor a que foram feitas janelas e que serve de abrigo ao restaurante “O paraíso dos grelhados” com a sua esplanada e devido ao facto de não haver electricidade tem que se comer um fantástico peixe à luz de velas. Original no mínimo, em relação ás espinhas não tem problema pois os peixes aqui são tão grandes e primitivos que as postas que nos servem ( meio kilo por pessoa ) até têm ossos em vez de espinhas, o que facilita imenso com a falta de luz.O nosso Vitara deu o berro, a enbraiagem não aguentou uma subida de alguns kilómetros para uma cascata perto da cidade e começou a deitar fumo, morreu para a vida e a nossa cascata ficou adiada para o nosso regresso da ilha do príncipe. Mais uma vez, leve leve, não se passa nada… O pessoal gosta é disto..aventura..

Um beijo e um queijo,

Helder, Filipa, Sónia e Jorge