Domingo, Fevereiro 26, 2006

Por entre vales e montes






O parque natural do Obô situa-se no centro da ilha, aqui reside grande parte da sua biodiversidade vegetal e animal. Podem encontrar macacos, cobras venenosas, e até morcegos com 70 cms de envergadura, para além de uma grande diversidade de pássaros dos mais variados tamanhos cores e feitios. Mas isto claro para quem está treinados para andar com os olhos na copa das árvores e não no chão escorregadio e lamacento, como nós..
A paisagem resume-se a um sem fim de vales de árvores monstruosas com as suas copas cobertas da neblina típica de uma floresta equatorial deixando-nos a sensação de estarmos envolvidos numa jornada épica pela sobrevivência numa floresta perdida qualquer. Nada disso.Francisco o nosso guia abria caminho através da mata cerrada à custa da sua catana afiada de meio metro, que cortada os obstáculos, lianas troncos e vegetação como se de manteiga se tratasse. Num total de 7 horas seguidas e de mais de 16 km percorridos nestas condições, conseguimos chegar ao nosso destino. O ponto mais alto da nossa caminhada foi a ascensão a um dos picos da ilha, a lagoa Amélia. Situada a 1643 m de altitude, esta antiga cratera do vulcão que deu origem à ilha encontra-se agora coberta de vegetação e não é mais do que um pântano. Ponto de passagem para quem faz estas caminhadas, a avaliar pelo trilho, não deve ser muita gente. Atravessamos antigas roças abandonadas e reconquistadas pela floresta que nestas paragens rapidamente ocupa o seu lugar. Não deixa de ser triste constatar que neste país tudo ou praticamente tudo está ao abandono, as roças, as estradas e sobretudo as pessoas. Em suspensão desde a independência, à espera de reformas e investimentos nunca concretizados estas gentes aguardam. E aguardam como se estivessem à espera que mais alguém, que não eles, fizesse alguma coisa.
Esta é uma terra de gente que espera, seja por melhores dias, e alguns suspiram mesmo por dias que passaram onde tinhas estradas, escolas, hospitais e em que sabiam pelo menos o seu papel numa sociedade que não era igualitária, mas que passou que também não o deixou de ser, antes pela cor da pele, agora por quem sabe gerir os seus interesses e que se aproveita de todas as fontes externas de dinheiro sem o canalizar para o que é preciso. Há aqui pessoas que não têm energia eléctrica à mais de 30 anos. Fome não existe pois basta estender a mão e fruta, peixe caem sem esforço no prato. Ao menos isso… Numa Africa tão afectada pela fome, pelo menos aqui esse não é o problema. Leve leve..

Um beijo e um queijo,

Helder, Filipa, Sónia e Jorge